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Mortes Violentas Intencionais no Brasil em 2025: entre avanços históricos e desafios persistentes

Em 2025, o Brasil alcançou a menor taxa de Mortes Violentas Intencionais (MVI) desde 2012. No entanto, os dados do 20° Anuário Brasileiro de Segurança Pública acendem um alerta: enquanto os índices gerais caem, as mortes decorrentes de intervenção policial e os feminicídios seguem em alta.  por Raquel Sousa*

Redação
Por: Redação Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.333
30/07/2026 às 18h19
Mortes Violentas Intencionais no Brasil em 2025: entre avanços históricos e desafios persistentes

Raquel Sousa*

Doutora em Ciências Sociais e Pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

O cenário da segurança pública no Brasil em 2025 revelou um contraste marcante entre o alcance de metas históricas e a persistência de formas específicas de violência. Durante o ano, o país registrou um total de 40.775 Mortes Violentas Intencionais (MVI), categoria que engloba homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes por intervenção policial. Esse número representa uma taxa de 19,1 mortes por 100 mil habitantes, uma queda de 8,2% em relação a 2024 e o menor índice registrado desde o início da série histórica, em 2012, sendo a primeira vez que o país fica abaixo da marca de 20 por 100 mil.

Um dos principais destaques da análise publicada na 20ª edição do Anuário diz respeito ao cumprimento da meta da Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Social. O plano original previa reduzir a taxa de homicídios dolosos para 16 por 100 mil habitantes até 2027, mas o Brasil atingiu a marca de 15,4 já em 2025. Além dos homicídios, outras subcategorias de crimes patrimoniais violentos apresentaram reduções: latrocínio (-17%), lesão corporal seguida de morte (-15,2%) e nas mortes de policiais civis e militares (-3,5%).

Apesar da tendência geral de queda, dois indicadores seguiram a trajetória inversa: os feminicídios e a letalidade policial. Em 2025, os registros de feminicídio apresentaram um crescimento de 4% em relação ao ano anterior, totalizando 1.571 vítimas em todo o Brasil. Embora as mulheres representem uma proporção menor no total de mortes violentas intencionais (9,2%), a persistência desses números reforça a urgência de estratégias de proteção e investigação específicas para enfrentar as dinâmicas da violência de gênero.

Já as Mortes Decorrentes de Intervenção Policial (MDIP) subiram 5,4%, com 6.602 registros. Proporcionalmente, uma em cada seis mortes violentas no Brasil foi causada por policiais, evidenciando que o Estado ainda é parte central do problema da violência letal. Estados como Rio de Janeiro e Rondônia viram suas taxas de MVI serem impulsionadas justamente pela letalidade das forças de segurança; no Rio, a polícia foi responsável por 20,5% das mortes violentas do estado em 2025.

A violência no Brasil não se distribui de forma uniforme, apresentando profundas disparidades regionais.As regiões do Nordeste e Norte registram as maiores taxas, 31,6 e 25,3, respectivamente. A lista das dez cidades com mais de 100 mil habitantes com as maiores taxas de MVI é integralmente composta por municípios do Nordeste. Maranguape (CE) lidera esse ranking, com taxa de 100,3, seguida por Eunápolis (BA) e Maracanaú (CE).

A análise territorial indica que a violência nessas regiões está fortemente ligada ao controle de infraestruturas logísticas por organizações criminosas. Cidades cortadas por rodovias federais estratégicas (como a BR-101 e a BR-116) ou próximas a portos e aeroportos tornam-se corredores de escoamento para o tráfico de drogas nacional e internacional. Além disso, a disputa por esses territórios entre facções que se expandiram para o Norte e Nordeste alterou as configurações locais da criminalidade e elevou a letalidade.

O perfil das vítimas de MVI no Brasil permanece extremamente específico. A violência atinge predominantemente os homens (90,8%), proporção que sobe para 99,3% nos casos de mortes causadas pela polícia. No recorte racial, 79,7% das vítimas são pessoas negras, e essa participação alcança 82% nas mortes por intervenção policial. Em termos etários, o pico de mortalidade concentra-se entre os 18 a 24 anos, que representam 36% das vítimas da letalidade estatal. Nos casos de latrocínio, 28% das vítimas tinham 60 anos ou mais.

Dito isso, a análise aponta para um paradoxo entre a melhora dos dados e o sentimento de insegurança. Embora os crimes contra a vida tenham caído, a população brasileira ainda compartilha um medo elevado do crime, muitas vezes alimentado por narrativas midiáticas e pela falta de coesão social. A conclusão é que, embora a redução dos índices gerais aponte que o país esteja na “direção certa”, a segurança pública ainda carece de mecanismos efetivos de controle do uso da força estatal, fiscalização e políticas que acolham a sensação de medo da população sem fomentar o pânico moral.

Texto adaptado da 20° Edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, por Deise Nunes, Pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Íntegra da 20ª Edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública

fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.333

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